Que é ser mulher? Que é ser mãe? E se eu não quiser ser mãe? Estou envelhecendo, como me encaixo numa sociedade que valoriza demasiadamente a juventude? Alguns desses questionamentos nos acompanham ao longo de nossas vidas e a angústia por não corresponder aos padrões sociais da “normalidade” - como ser a mãe ideal, como sustentar a opção de não ser mãe, ou a opção de adotar uma criança, como envelhecer “bem” - podem nos imobilizar. Dizer não ao que imobiliza é dizer sim a outras possibilidades.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Eu quero trocar o meu vestido pelo seu



Eu estive na África a trabalho, com minha colega Juliana. Éramos (ela ainda é) oficiais de chancelaria do Itamaraty e nos finais de semana, saíamos pelas ruas de Dakar para conhecer a cidade e a cultura local. Num final de semana, estivemos em Gore e lá descobrimos o oásis das roupas africanas que tanto queríamos. O problema é que não encontrávamos nas lojas tradicionais para turistas as roupas que as mulheres usavam nas ruas. Mas na Ilha de Gore descobrimos uma espécie de mercado local, com artesanatos e roupas, muitas roupas bonitas. A esta altura - já era nosso último final de semana -  já tínhamos comprado muitas coisas típicas do Senegal, mas não aquelas roupas. Entramos nesse mercadinho, que era um corredor de bancas (lojas mais rústicas). Quanto mais adentrávamos o local, mais lojinhas apareciam e mais vendedoras. Interessante que todas as vendedoras eram amigas entre si, e elas não se importavam em vender produtos da loja da vizinha. Se eu gostasse de uma roupa que tinha na barraca ao lado, a vendedora da barraca onde eu estava me mostrava a roupa, como se fosse da sua própria barraca. E de repente estávamos rodeadas por mulheres, todas vestidas lindamente e nos apresentando as roupas. O bom é que na África há roupas lindas para todos os tamanhos. Havia vestidos menores, maiores e enormes, todos bonitos e não tivemos que nos preocupar com a numeração. Bastava provar para ver se cabiam. Eu e Juliana nos perdemos, cada uma foi levada para uma lojinha e no final já éramos grandes amigas das vendedoras. Provei a roupa que me agradou e logo a vendedora estava costurando e fazendo uns ajustes no ziper. Uma das mulheres me chamou a atenção, ela não estava tão interessada em me vender um de seus vestidos, quanto estava interessada no meu vestido. Era um vestido muito comum, de malha cor verde e azul marinho, estou com ele na foto acima. Ela me chamou em seu stand e disse: "escolha o que quiser, eu troco pelo seu vestido". Naquele momento eu percebi que, assim como as roupas delas eram para nós uma grande novidade, as nossas também eram para elas. Ela queria um vestido "exótico" tanto quanto eu. Maravilhoso perceber que o que é tido como "local", "exótico", "diferente", depende apenas da perspectiva de quem vê. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma porta para o mar


Uma porta para o Mar... A foto desta porta foi tirada na Ilha de Gore, no Senegal. Este era o lugar de onde os portugueses e outros bárbaros levavam os africanos para trabalharem em suas colônias nas Américas. Era por esta porta que eles eram levados aos navios. Impactante pensar que uma paisagem tão bonita guarde histórias tão tristes.

domingo, 27 de novembro de 2011

As mães da África




A percepção que tive acerca da mães senegalesas é que elas parecem ser mais independentes do que as mães brasileiras, ao menos as brasileiras de classe média. A maternidade não perece ter lhes tirado o "direito de ir e vir". Elas trabalham e transitam pelas ruas atribuladas de Dakar sem que a presença de seus filhos restrinja seus movimentos e suas possibilidades de ação. Digo isto porque observei inúmeras mulheres carregando seus filhos nas costas, amarrados por panos e tecidos de cores e estampados lindíssimos em diversas situações do cotidiano desta cidade. Contrariamente, tenho observado entre as mães brasileiras de classe média um certo "aprisionamento" ao lar, decorrente das necessidades construídas pelo seu contexto social, inegavelmente influenciado por cientificismos -  em relação aos cuidados destinados ao bebê. 

Não-maternidade voluntária: a opção por não ter filhos



E foi assim que Simanca traduziu em charge a não-maternidade.
Talvez o termo não-maternidade voluntária não seja familiar para a grande maioria das pessoas. O fato é que vem crescendo no Brasil, embora de forma discreta, o número de mulheres que optaram por não ter filhos. As mulheres que participaram da revolução sexual nos anos de 1960 e 1970, contexto de surgimento da pílula anticoncepcional, das reivindicações do feminismo, do flower power e etc. são as que vislumbraram -  em nosso contexto cultural - pela primeira vez a maternidade como opção, e não como destino. Este tema foi o que investiguei em minha dissertação de mestrado, concluída e defendida no ano de 2010. Embora em outros países, como os da Europa, os Estados Unidos, Japão etc.a presença de mulheres que optaram por não ter filhos seja maior, em todos os contextos culturais citados, o preconceito contra as pessoas que optam por não ter filhos, especialmente as mulheres, é marcante. Vide minha dissertação de mestrado, intitulada "Significados de maternidade para mulheres que não querem ter filhos", defendida em 2010, no Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia. 
Algum de vocês, homem ou mulher, já pensou em não ter filhos? Como foi a reação das pessoas?

Sejam bem vindos

Queridos visitantes, convido vocês a participarem e construírem comigo uma jornada rumo ao desconhecido. Vocês se perguntarão, "ora, como ingressarei numa jornada rumo ao desconhecido com uma desconhecida?". Boa pergunta, mas a questão que coloco se dá justamente porque eu sempre tive uma certa aversão a blogs, na verdade eu não sabia ao certo como eles funcionavam. Só que, nos últimos meses, tenho tido acesso a muitas informações interessantes e visto pessoas compartilharem temas abrangentes justamente através de seus blogs. Mudei de ideia, e assim resolvi construir com vocês este espaço, no qual possamos discutir e mesmo publicizar assuntos pouco tratados que dizem respeito à condição de ser humano.
Quando falo isso, quero dizer as angústias por que todos nós passamos, muitas vezes silenciosamente, sem saber que alguém que está ao nosso lado, poderia partilhar conosco suas vivências e nos ajudar a compreender e transcender essas circunstâncias de angústia. Não quero tornar este blog um consultório psicológico, até porque já atendo clientes em meu próprio consultório, quero apenas que as pessoas compreendam que a imobilidade gerada pela angustia incompreendida pode nos sufocar. Mas existem formas de emergir e respirar, existem formas de retomar o protagonismo de nossas vidas.
A exemplo do que foi dito, tratarei de temas aqui considerados não-normativos, ou seja, temas e comportamentos que fogem aos padrões esperados pelo contexto social em que vivemos. O primeiro tema será: "mulheres que optaram por não ter filhos". Aguardo as contribuições de vocês!