Que é ser mulher? Que é ser mãe? E se eu não quiser ser mãe? Estou envelhecendo, como me encaixo numa sociedade que valoriza demasiadamente a juventude? Alguns desses questionamentos nos acompanham ao longo de nossas vidas e a angústia por não corresponder aos padrões sociais da “normalidade” - como ser a mãe ideal, como sustentar a opção de não ser mãe, ou a opção de adotar uma criança, como envelhecer “bem” - podem nos imobilizar. Dizer não ao que imobiliza é dizer sim a outras possibilidades.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Observador e observado






Uma coisa que sempre me impressionou muito foi o quadro de Velazquez, "As meninas", discutido por Michel Foucault em seu livro "As palavras e as coisas". Por que me impressiona? Por que nesse quadro, Velazquez não apenas retrata as meninas, mas retrata o próprio pintor do quadro (ele mesmo). Ele consegue unir no mesmo plano de representação tanto o observador (o pintor), quanto o observado (as meninas). E ficamos nos perguntando, será que o pintor retratado no quadro é o próprio Velazquez? Ou ele criou um terceiro personagem, o pintor do quadro, que nem é ele mesmo? O fato é que o observado não faz parte de uma realidade dada, mas construída, uma vez que é o observador (o pintor que seleciona o que será retratado. Por outro lado, o próprio observador faz parte do observado, já que ele aparece nela, ele mesmo se inclui nela. Isto acontece não apenas no plano concreto (como no quadro), mas também no plano subjetivo. Portanto, não estamos separados dos fenômenos que estudamos, pois a nossa presença nessas circunstâncias nos torna co-partícipes de uma realidade em construção. Isto quer dizer que eu e outro não são entidades separadas, mas intimamente relacionadas, que se influenciam. Toda relação humana, quando verdadeira, se torna um encontro.




Essa foto é outro exemplo da dialética observador/ observado: ao mesmo tempo em que fotografo a mulher no caminho, estou sendo fotografada por mim mesma. A realidade que tento capturar me captura a mim mesma. É importante que sejamos capturados de vez em quando, é importante que olhemos para o espelho.