Eu estive na África a trabalho, com minha colega Juliana. Éramos (ela ainda é) oficiais de chancelaria do Itamaraty e nos finais de semana, saíamos pelas ruas de Dakar para conhecer a cidade e a cultura local. Num final de semana, estivemos em Gore e lá descobrimos o oásis das roupas africanas que tanto queríamos. O problema é que não encontrávamos nas lojas tradicionais para turistas as roupas que as mulheres usavam nas ruas. Mas na Ilha de Gore descobrimos uma espécie de mercado local, com artesanatos e roupas, muitas roupas bonitas. A esta altura - já era nosso último final de semana - já tínhamos comprado muitas coisas típicas do Senegal, mas não aquelas roupas. Entramos nesse mercadinho, que era um corredor de bancas (lojas mais rústicas). Quanto mais adentrávamos o local, mais lojinhas apareciam e mais vendedoras. Interessante que todas as vendedoras eram amigas entre si, e elas não se importavam em vender produtos da loja da vizinha. Se eu gostasse de uma roupa que tinha na barraca ao lado, a vendedora da barraca onde eu estava me mostrava a roupa, como se fosse da sua própria barraca. E de repente estávamos rodeadas por mulheres, todas vestidas lindamente e nos apresentando as roupas. O bom é que na África há roupas lindas para todos os tamanhos. Havia vestidos menores, maiores e enormes, todos bonitos e não tivemos que nos preocupar com a numeração. Bastava provar para ver se cabiam. Eu e Juliana nos perdemos, cada uma foi levada para uma lojinha e no final já éramos grandes amigas das vendedoras. Provei a roupa que me agradou e logo a vendedora estava costurando e fazendo uns ajustes no ziper. Uma das mulheres me chamou a atenção, ela não estava tão interessada em me vender um de seus vestidos, quanto estava interessada no meu vestido. Era um vestido muito comum, de malha cor verde e azul marinho, estou com ele na foto acima. Ela me chamou em seu stand e disse: "escolha o que quiser, eu troco pelo seu vestido". Naquele momento eu percebi que, assim como as roupas delas eram para nós uma grande novidade, as nossas também eram para elas. Ela queria um vestido "exótico" tanto quanto eu. Maravilhoso perceber que o que é tido como "local", "exótico", "diferente", depende apenas da perspectiva de quem vê.
Que é ser mulher? Que é ser mãe? E se eu não quiser ser mãe? Estou envelhecendo, como me encaixo numa sociedade que valoriza demasiadamente a juventude? Alguns desses questionamentos nos acompanham ao longo de nossas vidas e a angústia por não corresponder aos padrões sociais da “normalidade” - como ser a mãe ideal, como sustentar a opção de não ser mãe, ou a opção de adotar uma criança, como envelhecer “bem” - podem nos imobilizar. Dizer não ao que imobiliza é dizer sim a outras possibilidades.
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Oi Sara! Estou acompanhando e adorando seu blog! Mas me conte uma coisa...e o final desta história? Vc fez a troca dos vestidos? Um grande beijo!
ResponderExcluirCris Aragão :)
Cris, foi a mesma coisa que Lu perguntou. No final das contas, eu não tive coragem de trocar. Fui pega de surpresa pela proposta, além disso,as possibilidades de roupa que ela me deu eram todas roupas quentes, pois os tecidos das roupas são quentes, com saia longa etc. e eu estava na praia, não ia aguentar usar a roupa até pegar o ferry boat e retornar para Dakar. Apesar disso, hoje eu penso que deveria ter me entregado àquele momento e trocado. É preciso estar desapegado para fazer isso, e eu ainda não estava. Beijos!
ResponderExcluirExatamente amiga Sara!!!
ResponderExcluirAdoro ler seus textos! Continue!!!!
bj grande,
Renata.
Obrigada, Renatinha! Beijos!
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